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“Ética não é um conceito académico, é prática diária”, defendeu António Faia
“Eu nunca tive um conceito de ética”. Foi com esta afirmação que o professor António Faia abriu a sua intervenção na conferência “Ética Profissional e Valores Cristãos”, promovida pelo Departamento da Pastoral do Ensino Superior de Viana do Castelo, na Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico.
Perante o auditório, com estudantes e docentes, o orador propôs uma leitura menos académica e mais vivida da ética, defendendo que, na prática quotidiana, o comportamento humano tende a organizar-se mais por intuições de justiça e coerência do que por definições formais. “Comportar-me bem era natural. Não era para receber um diploma”, afirmou, sublinhando a ideia de que a ética, mais do que um sistema teórico, se manifesta em ações concretas e em respostas pessoais ao que cada um considera correto ou incorreto.
Ao longo da intervenção, António Faia questionou também a forma como a sociedade utiliza conceitos como “ética”, “tolerância” ou “justiça”, alertando para o risco de estes se tornarem palavras vazias ou excessivamente formais. “Tolerar não é um elogio. Tolerar é suportar o outro como diferente”, disse, criticando o uso comum do termo.
A reflexão foi cruzada com referências de matriz cristã, nomeadamente a “regra de ouro”, “fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem”, apresentada como princípio transversal a várias culturas e épocas. “O essencial não é reagir ao outro, é tomar a iniciativa”, destacou.
Outro dos eixos centrais da conferência foi a ética nas organizações. António Faia descreveu o ambiente profissional como um espaço inevitavelmente marcado por diferenças individuais, onde a gestão não pode ignorar a complexidade humana. “Num grupo há sempre trigos e joios”, afirmou, recorrendo a uma imagem bíblica para ilustrar a coexistência de diferentes níveis de desempenho e compromisso.
Neste contexto, defendeu a importância da liderança baseada na confiança e no conhecimento real das pessoas. “Se eu não mergulhar, nunca vou conhecer as capacidades de ninguém”, disse, sublinhando que os comportamentos visíveis representam apenas uma pequena parte da realidade de cada indivíduo.
A intervenção incluiu ainda uma reflexão sobre liderança e responsabilidade, retomando a ideia de que “quem quiser ser o primeiro, deve ser o último a servir”, numa leitura alinhada com princípios cristãos de serviço e humildade no exercício do poder.
Entre exemplos pessoais, referências bíblicas e episódios profissionais, António Faia procurou desmontar a ideia de ética como conceito abstrato ou normativo. “A ética não é o inverso de fazer mal. É fazer bem”, concluiu, defendendo que a coerência entre ação e intenção é o verdadeiro núcleo da conduta ética.