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In Memoriam: Pe. Miguel Moura
Conhecemo-nos nos bancos do Seminário, embora ele fosse mais novo e estivesse em anos mais abaixo no percurso académico. Em Teologia fomos colegas como personagens de uma peça célebre, de que nem tínhamos consciência total, na altura, e que versava a prisão e julgamento do Cardeal Mindszenty, na Hungria. Hoje, ao ler parte da obra de Tomáš Halík – Diante de Ti os Meus Caminhos – entendo muito melhor o que, no final da década de sessenta do século passado, se passava por detrás da Cortina de Ferro e que nós quisemos mostrar ao público numa Festa do Seminário Maior.
O Miguel seguiu para o Colégio do Minho e, depois do 25 de Abril, encontrámo-nos outra vez como colegas, embora em cursos diferentes, na Católica de Braga: ele em Filosofia e eu em Filologia Clássica, ou Humanidades, como então se chamava o curso. Terminada a licenciatura, cada um seguiu o seu caminho: ele no Colégio e eu em diferentes Escolas Secundárias.
Sempre colegas e amigos de presbitério. Depois da reforma do ensino, ele rumou à vida de pároco em Ponte de Lima e, na sua humildade, pedia conselho nos encontros mensais de reflexão, oração e convívio, primeiro na Casa da Arca, do falecido Monsenhor Sousa, e depois da sua partida, em casa de Monsenhor Moreno, em Vila Mou. Era eu que, todos os meses, lhe lembrava o encontro via SMS.
O último foi, como dizemos entre nós, a romaria de maio, na Correlhã, no Santuário da Senhora da Boa Morte, em que o Miguel já não participou. Já muito doente, foi lembrado na oração do rosário e nos mistérios dolorosos meditados dentro do santuário.
Ontem à noite, ao ver uma publicação vinda de Angola, do padre Jesus, que mandava um abraço para todos e onde já dava a notícia, justificando a sua ausência — era já hora de recolher — perdi o sono. A perda de um amigo — porque somos humanos — toca-nos profundamente.
Eu gostava verdadeiramente do feitio reservado e simples do Miguel, que fez também parte do meu grupo de viajantes em um ou dois circuitos, sempre extremamente pontual; não se podia contar com ele antes da hora marcada.
Falava pouco, apenas o necessário, mas era justo nas suas afirmações e opiniões. Ao precisar de algum serviço, quando era pároco, era quase com pés de lã que o pedia e, porque eu andava ocupado, quase sempre recebendo um “não posso”, ficava amigo na mesma, sorria e murmurava: “Ficava feliz se pudesses!”
Agora, noutra dimensão, o Miguel, que sofreu de doença respiratória — ao ponto de eu já evitar ligar-lhe para não o cansar — está do outro lado da vida. E nós, tristes pela sua partida, só temos de dizer:
— Obrigado pelo teu aprumo, pelo teu exemplo, pela tua postura, pela tua obediência, pela tua amizade em presbitério.
Descansa em paz e até Deus!
Por Pe. Manuel Moreira