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Pe. Pablo Lima: “Viver a Palavra transforma corações e comunidades”
Para o padre e biblista Pablo Lima, a Bíblia não é apenas um livro sagrado, mas um caminho de encontro diário com Deus. A sua vocação nasceu no seio familiar e paroquial na Venezuela, entre a participação eucarística dominical, a catequese e os grupos juvenis, num contexto marcado por seitas protestantes que desafiavam os católicos a conhecer melhor a Escritura. Ainda antes da ordenação, começou a lecionar Sagrada Escritura no Instituto Católico, e, posteriormente, aprofundou os estudos de Exegese Bíblica em Roma, Jerusalém e Cambridge, onde concluiu o doutoramento. Hoje, dedicado ao estudo e à pastoral da Palavra, procura inspirar os fiéis a abrir a Bíblia todos os dias, meditar nas suas palavras e permitir que elas transformem atitudes, relações e corações.
Diocese de Viana do Castelo (DVC): De que forma a sua formação académica influenciou a sua compreensão da Bíblia e da missão pastoral?
Pe. Pablo Lima (PPL): A formação em Roma e em Jerusalém foram, essencialmente, no estudo das línguas bíblicas, isto é, do hebraico, aramaico e grego (supondo já o conhecimento prévio do latim) e na aprendizagem do método histórico-crítico (e não só), para ter um acesso o mais directo possível ao texto bíblico, ao seu contexto e às várias correntes interpretativas. O estudo em Cambridge concentrou-se sobre a relação entre a linguística cognitiva (como a linguagem e o pensamento se influenciam mutuamente) e como isso ilumina o estudo e a compreensão do hebraico bíblico. Um dos textos sobre os quais me debrucei é o Salmo 24,6: “procurar a Tua face, Senhor”. Isto é, o que significa “procurar” e o que é a “face de Deus”? Neste sentido, o estudo cuidadoso do texto tem desenvolvido em mim um amor profundo e uma maior atenção à procura de Deus nas Escrituras, na linguagem humana e na pessoa dos outros. O meu desejo é ajudar todos a encontrar o rosto de Deus na Bíblia, tanto na homilética como na pastoral.
(DVC): O que representa, para si, o Domingo da Palavra de Deus na vida da Igreja e dos fiéis?
(PPL): É uma oportunidade para criar ou reacender o amor pela Bíblia no povo de Deus. Lamentavelmente, a maior parte dos católicos – até sacerdotes - não lêem a Bíblia pessoalmente, mas apenas em contexto litúrgico. Como dizia alguém jocosamente: “Têm tanto respeito pela Bíblia, que nem lhe tocam”.
DVC: Como vê a relação entre estudo académico da Bíblia e a experiência espiritual dos cristãos na liturgia?
(PPL): O estudo académico nunca é apenas académico: é eminentemente pastoral e espiritual. Todo o estudo sincero e aplicado tem consequências na vida cristã e existe para isso mesmo: para iluminar e levar a responder melhor à Palavra. A minha experiência é que aqueles que atacam o estudo académico, também não fazem nenhum outro tipo de leitura ou aplicação séria à Palavra de Deus. Basta pensar em figuras como Santo Agostinho, São Jerónimo, o Papa Bento XVI, e notar que o seu estudo académico levava à oração e à conversão. Creio que é uma falsa dicotomia separar o estudo e a vida espiritual.
(DVC): Na sua opinião, quais são os principais desafios de aproximar os fiéis da Bíblia, na sociedade contemporânea?
(PPL): O primeiro desafio não é espiritual, mas pedagógico: a iliteracia e a falta de amor pela leitura são gritantes, entre nós. Em segundo lugar, é necessária formação de qualidade, no conteúdo e na forma. Quando ouço alguém dizer que uma formação bíblica é tediosa, significa que o formador não tem intimidade com as Escrituras nem paixão por elas: é um funcionário. O bom biblista tem de transmitir essa sede e, assim, ajudar as pessoas a compreender a linguagem e a querer saber mais. Ensinar as Sagradas Escrituras é ensinar a ter sede. Finalmente, creio que há necessidade de uma pastoral contemplativa, que ajude as pessoas a estar em silêncio, com calma, a ruminar um texto e aí, encontrar a Deus.
(DVC): Que estratégias ou hábitos concretos sugere, para que os cristãos possam “viver” a Palavra de Deus no dia-a-dia?
(PPL): Creio que a leitura do Evangelho quotidiano, de preferência conforme o leccionário da Missa, é essencial. É muito útil transcrever uma frase do Evangelho para um papelinho e metê-la no bolso, para a reencontrar e recordar durante o dia. O resto, faz o Espírito Santo. Hoje existem recursos como as app Passo-a-rezar ou Hallow, o podcast +365, etc.. Todos eles são preciosos, mas é necessário esse esforço de colher uma frase e ruminá-la ao longo do dia.
(DVC): Pode partilhar um exemplo pessoal, ou pastoral, em que a Palavra tenha transformado vidas ou comunidades?
(PPL): Recordo o caso de um jovem amigo chamado Adão, que fazia parte de um gangue violento dedicado ao tráfico de drogas e que, através da participação na Missa e da leitura diária da Bíblia, se converteu, mudou de vida e é, agora, um apóstolo doutros jovens. Também poderia citar muitos exemplos de pessoas que me dizem que a leitura diária as ajudou a reagir doutra maneira em casa e no trabalho e como, agora, se recordam das palavras de Jesus ao tomar decisões muito concretas.
(DVC): Como pode a Bíblia dialogar com questões éticas, sociais e existenciais da sociedade atual?
(PPL): O ser humano não tem mudado muito interiormente, apesar dos avanços tecnológicos. Os grandes desafios e desejos humanos – a dor, a alegria, o amor, a tristeza, a doença, a morte, as relações familiares e sociais – continuam a ser os mesmos. Nesse sentido, a Palavra de Deus é tão actual hoje como quando perguntou a Caim “Onde está o teu irmão?” ou quando disse a Pedro: “Segue-me”. A partir da convicção e da certeza de que o plano de Deus para a humanidade, revelado nas Escrituras, é para a sua felicidade, continuamos a encontrar os desafios de Deus para o nosso tempo.
(DVC): Qual o papel da comunidade e do acompanhamento pastoral na compreensão e na vivência da Palavra?
(PPL): Para além da dimensão litúrgica, as comunidades necessitam oferecer espaços e lugares de aprofundamento da Palavra de Deus para todas as idades e condições. São necessárias propostas concretas de formação e de oração com a Bíblia na mão, para que as pessoas se familiarizem e se enriqueçam com a Palavra, e aumente o seu desejo de a conhecer e pôr em prática. Neste sentido, o Domingo da Palavra é uma chamada de atenção para uma dimensão a viver todo o ano. Não basta entronizar solenemente o Leccionário.
(DVC): Que conselho daria aos fiéis, especialmente aos jovens, para que se aproximem da Bíblia com fé, inteligência e relevância na vida moderna?
(PPL): Que abram a Bíblia e comecem a ler o Evangelho todos os dias. No princípio, não importa muito o como se faz, mas sim a perseverança. Depois, virá a procura de instrumentos para aprofundamento. Duas pessoas crescem no amor mútuo quando estão em contacto todos os dias. E assim, pouco a pouco, conhecem-se e desenvolvem afecto e necessidade de partilha. O mesmo acontece com o rosto de Deus que Se nos revela na Bíblia: o importante é ser fiel todos os dias ao encontro marcado; o resto virá por acréscimo.